Com o domínio do capitalismo na economia mundial, estruturado segundo grandes empresas e, como tal, grandes empregadores, os trabalhadores perderam a capacidade de estruturar e estabelecer um novo modelo econômico.

Modelo no qual eles teriam a iniciativa de gerar empregos, de dar ao trabalho o comando do desenvolvimento econômico, empurrando ou puxando o crescimento do PIB. Era, implicitamente, o sonho comunista, criando um modelo alternativo ao capitalismo.

Os Sindicatos não têm condições de serem proativos. Foram relegados a posições reativas, defendendo as suas conquistas passadas. Lutam pela melhoria das condições do seu emprego, mas sem capacidade de iniciativas para criar e ampliar empregos. Diante da perspectiva de crise econômica, o seu posicionamento é de reagir contra as consequências, de forma de impedir que as medidas compensatórias anti-crise ou as para sair dela sejam feitas em prejuízo dos trabalhadores. A questão é: existe possibilidade dos trabalhadores adotarem posições proativas contra a crise?

A crise econômica se caracteriza por duas situações tipicas:
1. manutenção dos níveis de produção, mas com incapacidade dos agentes produtivos em pagar as dívidas;
2. Redução da produção, com redução concomitante da capacidade de pagamentos das dívidas.

Há sempre uma crise produtiva e, consequentemente, de redução de trabalho e uma crise financeira. Há uma terceira dimensão que é a crise monetária, representada pelos elevados índices de inflação. O capitalismo defende o livre mercado, como mecanismo principal da economia, mas com intervenção estatal para a defesa dos seus interesses. As políticas monetárias estabelecidas pelo Banco Central, com autonomia ou não, tem por objetivo principal manter os ganhos do capital, ou minimizar as suas perdas. O trabalho não entra nos cálculos das equações econométricas, a não ser como custos que precisam ser controlados. Ou como fator de improdutividade.

O capitalismo gira em torno do financiamento que alimenta a produção e faz “a roda do crescimento econômico girar”. Uma crise ocorre quando essa roda freia ou para. O papel do Banco Central é impedir essas freadas. Os trabalhadores, enquanto fatores de produção, tem um alcance limitado sobre o crescimento econômico nacional, porque o seu comando se resume ao trabalho por conta própria, à microempresa individual ou às cooperativas de trabalho.

A cooperativa de trabalho seria uma alternativa à empresa capitalista. Foi desenvolvida em alguns países, mas não prosperou como um modelo universal. Seria necessário analisar melhor as razões pelas quais elas não prosperaram, como solução. Está vinculada ao processo ou às disputas de poder. O trabalhador, enquanto empregado, não tem ação proativa direta. Ele não tem forças ou poderes suficientes para gerar empregos. Esses são sempre criados pelo empregador em função dos níveis de produção e das tecnologias utilizadas, que determinam a quantidade de postos de trabalho.

Uma ação, aparentemente proativa, é impor restrições que levam ao uso de mais trabalhadores para o mesmo posto de trabalho. É, por exemplo, a defesa da redução da jornada de trabalho e limitação do uso de horas extras. Neste caso pode haver a geração de mais empregos, mas não do fato original que é a geração de postos de trabalho. Numa situação de crise os cortes alcançam os postos de trabalho e não apenas a sua ocupação.

A ação indireta dos trabalhadores tem sido o apoio às medidas governamentais de suporte às empresas geradoras de emprego. Essa foi e é ainda uma das principais estratégias dos Sindicatos, defendendo o apoio à indústria automobilística. Significa assegurar os empregos mediante ação governamental, através da empresa capitalista. Se o trabalhador tem restrições para “empurrar” o crescimento econômico pelo lado da produção, tem um papel fundamental como consumidor, sendo o principal item da demanda interna que “puxa” o crescimento econômico.

A empresa produtora, seja capitalista ou não, produz para vender ao mercado. Sem mercado ela não produz, porque não tem como escoar a sua produção. O mercado, ao final, é de cerca de 20% de compra de ativos, incluindo os das empresas e 80% de consumo familiar, dos quais a quase totalidade é do consumo familiar. Esse é alimentado pelas remunerações auferidas pelos trabalhadores com o seu trabalho.

Sem o crescimento da massa salarial, não há crescimento da produção. Portanto, quanto mais os trabalhadores ganharem, maior será a demanda, puxando os aumentos de produção.
No entanto, esse processo envolve um risco de desequilíbrio temporário, curto ou longo: é a inflação. Supostamente, o aumento da renda do trabalhador, gerando mais consumo, provocaria a inflação, porque a produção não subiria em igual proporção, gerando falta de produtos e elevação dos preços.

O remédio simplista e escamoteador da política monetária neoliberal é o aumento dos juros. Argumenta-se que com o aumento dos juros haveria um esfriamento da demanda e com isso produção e consumo voltariam a se equilibrar, contendo a inflação. Na prática significa transferir mais renda para os rentistas e banqueiros, tirando-as dos produtores industriais e comerciais que venderiam menos e precisariam baixar os preços.

E são tão convincentes da argumentação que “todo mundo acredita” e escondem a transferência de renda. Quando a inflação ameaça aumentar o Banco Central aumenta a taxa básica de juros e o mercado segura os preços. O efeito não é a realidade econômica, mas a crença. O que o mercado efetivamente precisa? Uma segurança de que o consumo doméstico vai continuar aumentando, com segurança, nos próximos anos. O mercado toma o PIB como indicador, mas a referência para o produtor não são os demais produtores, mas a demanda.

Como garantir esse crescimento sustentável? Como fazer com que o mercado volte às suas vistas para esse lado? Os trabalhadores podem contribuir para uma mudança cultural, trocando a visão repetida pela mídia de que o PIB representa a totalidade da riqueza produzida pela economia durante um determinado período. O que precisa ser enfatizado, repetido, reiterado e entendido que o PIB representa a totalidade do que foi consumido e investido pela economia durante um período anterior. A ênfase deve ser dada à demanda e não à produção.

A sociedade deve perceber que uma economia vai bem quando está demandando mais. A partir dai perceber se essa demanda está sendo suprida pela produção interna ou externa. Se a produção nacional está suprindo apenas a demanda interna ou também a externa. Se não está voltada para o exterior, a crise internacional pouco lhe afeta. Ou, o Brasil contribuiu para minorar a crise em terceiros países por importar mais deles?

Para o Brasil voltar a crescer não será a produção que vai empurrar a demanda. É a demanda que vai puxar a produção. E quem compõe a demanda é o trabalhador.