A eleição de Donald Trump a presidente dos Estados Unidos foi tida como improvável pela maioria da imprensa norte-americana e mundial, por várias razões. As pesquisas apontavam para fácil vitória de Hillary Clinton. Erraram porque seus métodos de coleta de informações não eram seguros: amostras que teriam de respeitar a peculiaridades de cada estado do país não seguiram os manuais, os eleitores de Trump tinham constrangimento ou medo de declararem seus votos em um ambiente tão pressionado pela mídia (jornais, TV e redes sociais), e assim por diante.

Trump propôs a “mudança” por meio de uma campanha errática, sem programa definido, mas com itens que cativaram – pela emoção – a grande parte dos excluídos e não-identificados com as elites financeiras beneficiadas pelo movimento mais recente de globalização dos interesses norte-americanos: intensa e extensa participação em atividades militares além das fronteiras, desde o primeiro governo George W. Bush, especialmente a guerra do Iraque e o desmantelamento da Líbia de Khadafi, deslocamento de indústrias nacionais para a Ásia em busca de custos mais baixos de reprodução do capital (baixos salários, isenções tributárias e favorecimento às exportações desde as novas bases) e também pelo relaxamento da legislação que manteve impunes os agentes bancários e financeiros responsáveis pela crise de 2008-2009, com efeitos pertinentes até hoje.

Grosso modo, Trump vocalizou os interesses imediatos das massas excluídas da globalização econômica, dentro do território norte-americano. Uma reação impulsiva, sem a devida atenção aos demais efeitos que certamente virão ou a falta de atenção às promessas irrealizáveis de Trump como presidente.

Entre as conseqüências problemáticas, certamente estarão a falta de apoio aos órgãos específicos da Organização das Nações Unidas (ONU) quanto ao Tratado do Clima, os tratados que dizem respeito ao tratamento de minorias e imigrantes; bem como pela agressividade protecionista que será projetada sobre a Organização Mundial do Comércio (OMC), com o recrudescimento de política nacionalistas, evitando a complacência comercial exercida por Obama como presidente;.

Aliás, e anterior à posse de Trump, a OMC já puniu o Brasil nesta última semana, por causa das políticas de isenção tributária e outros deferimentos fiscais aos produtores de mercadorias exportáveis; ainda que caiba recurso dessa decisão, com poucas chances de êxito.

Trump será instrumento de forja de uma nova ordem mundial, especialmente pelo novo jogo que será estabelecido pelas relações da União Européia, China e Rússia com os Estados Unidos. Putin apoiou com entusiasmo sua candidatura, pois pretende afastar as limitações impostas a Rússia, depois das ações de Putin na Ucrânia e na Criméia. Há aí interesses cruzados entre empresas russas e norte-americanas no campo de exploração de petróleo e gás, que necessitam do poderio russo frente à Ucrânia, de modo especial. Obama foi sempre reticente em apadrinhar ostensivamente a estes interesses. Não será o comportamento de Trump, certamente. E isso poderá gerar novas alianças, uma vez que a China e a Rússia estão se entendendo bem a respeito do Báltico e frente às pretensões armamentistas do Japão. O que fará os Estados Unidos de Trump, diante deste novo quadro internacional?

Muito provavelmente, haverá novo engajamento militarista com os desígnios de uma ordem mundial, com Trump já tendo se pronunciado a favor de dobrar o orçamento militar norte-americano, dos atuais US$ 865 bilhões para US$ 1,6 bilhôes. Hoje o orçamento militar dos USA é dez vezes superior ao da Rússia; o que o faria mais de 20 vezes superior, com graves potencialidades de expansionismo em áreas não-ostensivamente ocupadas pelos USA no mundo de hoje.

De outro lado, Trump ameaça taxar (35% a 45%) as importações da China e do México, de modo particular. Ocorre que parte razoável destas importações é originada de empresas norte-americanas na China e no México. Taxaria ele os empresários americanos no Exterior? Suportaria ele a pressão dessas empresas, em verdadeira de dupla-tributação para entrar no mercado nacional norte-americano? Problemas graves à vista.

Resta projetar a situação dos “países emergentes” como o Brasil. Certamente. As pressões pelo estabelecimento de bases militares em nosso território aumentarão, já que é um sonho antigo das autoridades militares norte-americanas, há longo tempo. O regime de exportação de mercadorias brasileiras, principalmente insumos e commodities, aos Estados Unidos será prejudicado pelas taxações extraordinárias prometidas.

Além disso, certamente, forças políticas conservadoras locais no Brasil terão tratamento diferenciado por parte de organismos norte-americanos, por exemplo, as Ligas e Associações que promovem a luta contra o aborto, a estatização dos serviços de saúde e assistência social. Aqui no Brasil estas forças terão mais apoio por parte do Governo Trump, na contra-corrente dos movimentos sociais que têm conseguido relativo êxito, seja por decisões do Supremo Tribuna Federal, seja por decisões oriundas do próprio Congresso Nacional.

O movimento sindical sofrerá pressões contra a internacionalização de suas plataformas, especialmente em referência às organizações dos trabalhadores norte-americanos. Enfim, um mundo que promete ser política e economicamente remodelado, a partir da eleição presidencial dos Estados Unidos.

 

Benício Schmidt – Colaborador do IAE/UGT