A instalação do governo Trump é um marco histórico, para os Estados Unidos e para o mundo. Uma forma de tratar do assunto talvez seja não como causa, mas como conseqüência de muitos fatores, surgidos como raízes de sua candidatura e da sua vitória. Ou seja, como um conjunto de sintomas de uma crise do próprio sistema que o gerou, pois ele sublinha problemas de ordem geopolítica, bem como impasses no sistema doméstico norte-americano.

Estudos que têm sido feitos desde 2014 indicam que a democracia americana está a perigo, especialmente quando a maioria da opinião pública passa a discordar ou mesmo confrontar as “elites econômicas” ou os “interesses organizados”, catalisados pelos grandes oligopólios nacionais. Quando isso acontece, geralmente as elites perdem em pleitos eleitorais. Ao contrário, quando há grande confluência entre elites e a grande massa dos norte-americanos, o resultado é positivo e o apoio aos governantes é reiterado, confirmado. Isso não necessariamente configura os Estados Unidos como uma real oligarquia, mas sim como um sistema político democrático marcado pela dominação das elites econômicas.

Nesse quadro, é visível que há uma profunda desigualdade de forças marcando as relações entre elites econômicas e a massa dos cidadãos; onde o sistema político, marcado por um bipartidarismo excessivo, embora haja sempre muitos pequenos partidos e candidaturas presentes em especial em pleitos presidenciais. Hoje, por exemplo, há apenas dois senadores independentes eleitos.

Donald Trump não era membro da máquina política vigente em Washington e se posicionou claramente como um “outsider” (estranho independente) na convenção do Partido Republicano, em que venceu candidatos veteranos e experientes na vida parlamentar e governamental. Fez disso uma vantagem particular, assim como Barack Obama, há nove anos, também explorou sua posição de relativo neófito nas disputas do Partido Democrata, embora já fosse senador.

Trump também desfrutou das vantagens de ter Hillary Clinton como sua adversária; pois ela não atraiu o voto dos democratas na quantidade necessária, como fez Obama em dois pleitos antecedentes. Além da falta de adesões, Hillary foi ostensivamente apoiada pelos grandes grupos financeiros de Wall Street, recolhendo daí suas maiores doações. Assim, Trump incorporou a apatia e a desilusão com o bipartidarismo empobrecedor de opções e com o suspeito apoio do mundo das finanças à sua adversária.

Além disso, há evidências que entre os 27 estados controlados por Republicanos eleitores pertencentes a minorias foram sistematicamente marginalizadas, impedidos de se alistarem. O que configura fraude sistemática, por meio do Intersate Vote Registration Crosscheck Programme, comandado por Republicanos, quando jovens, negros, hispanicos e asiáticos-americanos, com tradição democrata, foram impedidos de votar. Mesmo assim, e por isso mesmo, a vitória de Trump enfraquece o sistema de dominação bipartidária, comprometendo a essência da democracia norte-americana.

Por isso, entre os 227 milhões de elegíveis votos, somente um quarto votou em Trump. Um pouco mais (votos populares) votou em Clinton. Uma pequena minoria votou em outros candidatos como Jill Stein do Partido Verde; enquanto 42% se negaram a votar!

As acusações contra a possível intervenção russa surgem no horizonte como panacéia para disfarçar a fragilidade do atual sistema eleitoral. Com a fraqueza do sistema, Trump sintetiza a possibilidade de fortalecimento de tendências fascistas na política norte-americana, governando com apoio de ostensiva minoria. Uma indicação objetiva de decadência do sistema democrático.

Isso não se torna compatível com o correto tratamento de emergentes e dramáticas realidades, que necessitam da construção de efetivos consensos para decisões sobre mudanças climáticas, fontes de energia não-renováveis, escassez de alimentos e instabilidade econômica internacional. A falta desse requerimento certamente levará a uma escalada de violências internacionais, exacerbação de protestos civis e militarização, e assim por diante. A resultante, além de desgastar a crença no sistema democrático – que deve ser inclusivo de toda a cidadania participante – favorece a construção de sistemas proto-fascistas, exacerbando o papel das elites econômicas vigentes.

Trump significa buscar os sintomas por meio da luta contra o terrorismo e o caos; sem atentar para as conexões globais que hoje determinam a situação mundial. Busca-se reviver os “bons e velhos tempos” baseados no poder industrial dos Estados Unidos e declaram-se como inimigos aqueles que não querem a América Grande Novamente. Uma solução narcisística, xenófoba e que ignora o funcionamento do mundo, atualmente.

Um caso exemplar, indicando a falência do sistema mundial, é dado pela crise energética. Os governos anteriores também falharam, pois ficaram no centro da energia fóssil, como pólo mais dinâmico a ser protegido. E a operação de extração de energia desta fonte tem regredido, ao longo do século. Há um conceito para medir este valor (Energy Return Investment- EROI), cálculo que compara a energia extraída de uma fonte frente a energia usada para permitir a extração. Nos anos 1930 o EROI do petróleo era de 100, nos Estados Unidos; nos anos 1970 baixou para 30. Nas últimas décadas, passou para 10 ou 11.

De acordo com ambientalistas de referência, inclusive Charles Hall (State University of New York), criador da medida EROI, o declínio líquido de energia global é a causa mais fundamental da doença global. Pois precisamos de energia para produzir e consumir, mais energia para aumentar a produção e o consumo, conduzindo o crescimento econômico. Mas, se estamos produzindo menos energia ao longo do tempo simplesmente não podemos aumentar o crescimento econômico. Isso tem conseqüências devastadoras, pois temos aumentado as dívidas para financiar novas atividades econômicas. A dívida global é hoje maior do que em 2007, baseada na busca por um futuro energético e ambientalmente insustentável. Estamos aumentando a exploração da energia fóssil, assim acelerando mudanças climáticas. Aumenta a instabilidade alimentar, entre outras, forçando planejamentos militares de segurança frente a rebeliões, enfraquecendo Estados e inflamando mesmo o terrorismo.

Trump surge como “solução” a esses desafios. Obama e suas políticas foram insuficientes para bem encaminhar essas questões (oito anos de guerras constantes ao redor do mundo). Trump vai avançar nos combustíveis fósseis, agravando a instabilidade do sistema financeiro esmagado por crescentes dívidas e pondo a culpa nas minorias étnicas, Muçulmanos, mulheres e os LGBT. Seu Secretário de Estado, CEO da Exxon Mobil (Rex Tillerson) tem profundos laços com a Rússia, dados seus interesses com a estatal petrolífera Rosnet, com acesso seguro aos campos do Ártico. A Exxon também fez acordos com o Governo Curdo (Kurdish Regional Government) no Iraque, marginalizando o governo central iraquiano formando uma milícia privada para defender os campos petrolíferos, controlados pela ditadura do Chad.

Tanto Bill Clinton, quanto Barack Obama fizeram as mesmas aproximações, em busca de oportunidades de negócios e busca de doações (US$ 1 milhão para a Fundação Clinton, por exemplo). As políticas de segurança interna seguiram : vigilância, torturas, guerra de drones contra populações indefesas em sete países, totalizando dez vezes mais ataques do que o período-Bush. Trump não é novidade neste campo, mas uma significativa ameaça de radicalização. Isso tem causado pânico e novas alianças entre democratas e republicanos e outras forças democráticas, dados os perigos iminentes.

Enquanto isto, o Brasil não está no radar dos Estados Unidos, de modo especial. O volume de comércio do Brasil com os Estados Unidos – em relação ao nosso PIB – é de 3%, muito menor do que o equivalente em relação ao México (43%) e ao Chile (8%). Não há fronteiras entre os países e os Estados Unidos tem tido superávit comercial em relação ao Brasil.

O rompimento unilateral de Trump com o TPP (Tratado Trans Pacífico) trará novas oportunidades de alianças entre países da América Latina, como já se manifestou o presidente do México. Novos tempos, com a possível redinamização do Mercosul e aprofundamento de relações com a China. Cenários mais prováveis.

Benício Schmidt – Colaborador do IAE/UGT