Duas características aparecem marcantes nas cadeias produtivas da atualidade, 1. a complexificação da relação entre o local e o global (processo de alargamento ou reestruturação externa e interna da produção) e 2. a ‘fragmentação coordenada’ da produção, do fornecimento e da prestação de serviços entre-firmas (relações de dependência, dominação e interdependência ao longo da cadeia, contidas em um sistema de dispersão e realocação de funções, de serviços e de atividades).

Essas características afetam não só a configuração, como também a organização do trabalho em todo mundo. O grande efeito para o trabalho da reestruturação externa (inter-firmas) ao longo da cadeia produtiva de TI, por exemplo, tem sido a intensificação do trabalho e uma maior demanda por ‘flexibilidade de tempo’ dos trabalhadores, o que afeta o conteúdo do trabalho e o nível de habilidades exigidas por meio de um processo de maior padronização, formalização e aproveitamento do tempo (FLECKER, Jörg e MEIL, P. 2011).

Estudos sobre a reconfiguração das cadeias produtivas trazem conceitos e ferramentas úteis para tratar as complexas relações entre o global e o local, bem como para refletir sobre o processo de fragmentação e dispersão coordenada das cadeias de produção. Entre as ferramentas analíticas mais usadas estão as ideias de Offshoring (reterritorialização da produção), Outsourcing (terceirização, que não necessariamente leva à mudança territorial do total da produção), Cadeias Globais de Valor CGV (Global Value Chains GVCs), Redes de produção Globais RPG (Global Production Networks – GPNs) e upgrading social/econômico (downgrading econômico), este último contém a dinâmica dos atores (capacidade de mobilidade e idéia de cadeias produtivas inclusivas) dentro das cadeias de produção.

Offshoring é um processo que se difere da terceirização pela mudança territorial da produção como um todo, não apenas de partes ou de produtos específicos; é o modelo de realocação de processos de negócio de um país para outro. Ele inclui qualquer processo do negócio, como produção, manufatura e serviços. Processos intensamente suportados por tecnologia da informação são candidatos naturais ao offshoring. (FRIEDMAN, p. 135-136). É caracterizado pelo uso de trabalho-intensivo e baixas habilidades (low-skilled work), o que significa baixa de custo de produção. Recentemente, tem-se notado alguma reversão neste processo devido ao encarecimento dos custos de produção nos mercados de trabalho dos países em ascensão.

A terceirização (Outsourcing) ou mudança nos padrões de fornecimento de mercadorias e serviços dentro das Cadeias Globais de Valor – CGV (ligando produção primária, processamento, distribuição e varejo) engendra possibilidades de upgrading econômico das firmas, isto é, possibilidade de as firmas alterarem inclusivamente sua posição na CGV, e de serem integradas aos sistemas de produção global ou regional, envolvendo muitas localidades simultaneamente em larga escala. Esta integração pode ser guiada ou pelos “compradores” (buyer-drivencommodity chains, foco no fornecimento de baixo custo) ou pelos “produtores” (producer-driven, indústrias de tecnologia intensiva e de capital, como a automobilística e a de eletrônicos), pois eles são capazes de definir demandas, modelos e formas de trabalho no sistema produtivo.

As análises de Cadeias Globais de Valor (CGV) dispensam atenção ao papel da criação de valor, da diferenciação de valor, e da captura de valor em um processo coordenado de produção, distribuição e varejo (Bair 2009b; Gereffi 2005; Gereffi and Kaplinsky 2001). Valor aqui é entendido como a posição que as firmas podem ocupar dentro da cadeia produtiva, do ponto de vista de apropriação dos resultados da produção e das relações de poder, dependência e interdependência das firmas entre si, e também da relação das firmas com as nacionalidades a que estão submetidas.

A CGV também deve incluir o potencial de mobilidade dos atores dentro das cadeias de produção, esta dinâmica se traduz em movimentos chamados de upgrading, quando há uma mobilidade ‘de baixo para cima’ na cadeia de valor (passa-se a desempenhar atividades de maior valor agregado na produção), ou downgrading, que é quando há uma mobilidade negativa.

O upgrading pode ser de ordem econômica, quando beneficia mais diretamente as firmas ou o capital, ou de ordem social, quando beneficia mais amplamente os trabalhadores em suas condições de trabalho e proteção social. Upgrading econômico é definido como o processo pelo qual os atores (firmas/empresas e trabalhadores) deixam de exercer atividades de baixo-valor para realizar atividades de relativo alto-valor nas Redes Globais de Produção – RGP (GEREFFI 2005: 171).

Quatro tipos de upgrades econômicos são identificados: 1 – de processo (maior produtividade por automação, redução de trabalho qualificado), 2 – funcional (sofisticação de funções da produção pela inclusão de atividades de alto valor-agregado), 3 – de produto (sofisticação da produção por inclusão de produtos de maior valor; maior qualificação requerida) e 4 – de cadeia (mudança para uma cadeia de produção tecnologicamente mais avançada; requer trabalho mais qualificado, especializado).

O upgrading social é o processo de aperfeiçoamento ou melhora dos direitos e benefícios dos trabalhadores e dos atores sociais, junto com o aprimoramento da qualidade dos empregos (SEN 1999; 2000).

A perspectiva das Redes Globais de Produção (RGP) examina não apenas a interação entre as empresas líderes e os grandes fornecedores, mas inclui o conjunto de atores que contribuem para influenciar e moldar a produção global, como por exemplo, os governos nacionais, as organizações multilaterais, as organizações sindicais internacionais e as ONGs (Bair 2009b: 4; Hess and Yeung 2006). O foco nas RGPs também coloca mais ênfase no imbricamento social e institucional da produção (a produção vista em seu contexto, como parte de um todo complexo), e na relação de poder entre os atores, o que varia, pois suas origens estão espalhadas em múltiplos países em desenvolvimento.

Para melhor entender o papel e o impacto que o trabalho tem dentro das RGPs e das CGVs é preciso integrar os trabalhadores como agentes produtivos e sociais dentro da dinâmica dessas cadeias, e também considerar que as pressões sobre os custos (competitividade) e os padrões de qualidade dos mercados consumidores afetam o trabalho do ponto de vista da intensidade e do nível de habilidades (qualificação) requeridas em diferentes nós dentro das cadeias produtivas. As firmas líderes têm um papel dominante e o status dos trabalhadores dentro das cadeias de produção tem implicações importantes para a capacidade de o trabalho se beneficiar ou participar da economia (ROSSI, 2011).

O upgrading econômico das firmas na Rede Global de Produção (RGP), no entanto, não necessariamente leva ao upgrading social dos trabalhadores, gerando melhores condições de emprego, salário e renda, e assegurando direitos trabalhistas. A relação positiva entre upgrading econômico e social depende largamente das características dos atores e da posição que ocupam dentro da cadeia produtiva.

Entender como e por que o upgrading econômico não leva automaticamente ao upgrading social pode informar as bases para o desenho de intervenções que irão promover ambos (o famoso cenário de “ganha-ganha” ou “win-win”). Tais intervenções podem ocorrer em diferentes níveis, incluindo representações de trabalhadores (sindicatos fortes), iniciativas em nível da firma/empresa, legislação governamental e iniciativas multilaterais (recomendações da OIT e OCDE).

Lorena Ferraz C. Gonçalves – Socióloga, mestre em Ciências Sociais (UnB).
Agradecimento ao professor Moisés V. Balestro (UnB) pelo envio de bibliografia.
Referências
BARRIENTOS, Stephanie; GEREFFI, Gary; e ROSSI, Arianna.(2011)“Economic and social upgrading in global production networks: A new paradigm for a changing world”.
In International Labour Review, Vol. 150, No. 3–4. International Labour Organization.
BARRIENTOS, S. (2011) ‘Labour chains’: analysing the role of labour contractors in global production networks. In BWPI Working Paper 153.
GEREFFI, Gary; e LEE, Joonkoo. (2012) “Why The World Suddenly Cares About Global Supply Chains”. In Journal of Supply Chain Management, Volume 48, Number 3.