Você sabe do que se trata a chamada 4ª Revolução Industrial? Quais seriam setores mais afetados positiva e negativamente com a expansão da tecnologia?

A mais completa e didática obra já escrita até agora sobre a 4ª revolução industrial é de Klaus Schwab. Segundo ele estão em curso mudanças profundas que criam novos paradigmas em todos os setores das atividades humanas, marcando o surgimento de novos modelos de negócios, na descontinuidade das operações, na reformulação da produção, na mudança do padrão de consumo e do transporte dos sistemas logísticos.

Ainda segundo Klaus Schwab, essa 4ª revolução industrial se revela pelas seguintes razões:

– Velocidade: se dá em um ritmo exponencial e não linear (mundo interconectado e novas tecnologias gerando tecnologias mais novas);

– Amplitude e profundidade: revolução digital como base, mudanças profundas de paradigmas: no que, no como e em quem somos;

– Impacto sistêmico: muda sistemas inteiros entre países, dentro deles, nas empresas, indústrias e sociedade.

No que consiste a composição dos elementos que integram e sustentam a 4ª Revolução Industrial?

– A ”segunda era das máquinas” (MIT): Tecnologia e digitalização – fundamentada em computador, software e rede; Internet mais ubíqua e móvel, sensores menores mais poderosos e mais baratos; Inteligência artificial e aprendizagem automática (das máquinas)

– Fábricas inteligentes – sistemas e máquinas inteligentes conectadas: Sistemas físicos e virtuais de produção cooperam de forma global e flexível: total personalização da produção;

– Sequenciamento genético, nanotecnologia, energias renováveis, computação quântica.

Tendo em vista todos estes elementos que constituem a chamada 4ª Revolução Industrial, precisamos prestar atenção aos ramos e atividades econômicas que serão direta e indiretamente afetados pela expansão deste modelo.

No mundo do trabalho:

– Produção: Decréscimo da participação do trabalho no PIB- barateamento dos bens de investimento; a produção incorporando quase obrigatoriamente estes bens e maior competitividade.

– Beneficiários: Provedores de capital intelectual ou físico – inovadores, investidores e acionistas.

Já sabemos que a tecnologia sempre impacta o mundo do trabalho, agora, quais seriam os impactos dessa revolução tecnológica no emprego?

Pesquisas apontam para uma provável eliminação de dois tipos de trabalho, o trabalho mecânico repetitivo e o trabalho manual de precisão.

O que será exigido do trabalhador?

Capacidade de se adaptar continuamente e aprender novas habilidades e abordagens dentro de uma variedade de contextos.
Habilidades em resolução de problemas complexos
Competências sociais e de sistemas, e menos habilidades técnicas específicas.
Modelos de formação acadêmica para trabalhar com (e em colaboração com) máquinas cada vez mais capazes, conectadas e inteligentes.
Dado esses fatos, precisaremos ter uma reação reguladora dos formuladores de políticas públicas.

Em um evento de formação organizado pela UGT que ocorreu este ano no Rio de janeiro, foram discutidos quais seriam os impactos do avanço da tecnologia em cada setor. É importante relatar a experiência que cada trabalhador vive e o que cada um tem a dizer sobre o que acha sobre o avanço e o uso da tecnologia em seu setor.

No geral, foi constatado um reconhecimento da melhoria no trabalho com a introdução de novas tecnologias com novos perfis de profissionais, e o alerta de que reduzem trabalhadores, com raras exceções, como TI no campo de futebol.

Dois setores são particularmente e profundamente afetados pelos avanços tecnológicos, com profissões com habilidade e outras repetitivas, sendo praticamente extintas: o setor de vestuário e o bancário.

No serviço público, os impactos que os sindicalistas indicaram foram:

Controle de ponto: sistemas eletrônicos e biométricos que reduziram empregos de quem atuava na área e agora gera um resultado mais simplificado, preciso e eficiente.

Área de estradas: a informática reduziu drasticamente pessoal, por exemplo, para execução do corte de vegetação programada pelas máquinas e mesmo na manutenção das máquinas, não tem gente.

Em salas de aula: alunos pesquisam em sala de aula nos smartphones e encurralam o professor, brigas entre professores e alunos por causa de celulares durante as aulas.

Redução e quadros: sem concurso para funcionários administrativos há quase 10 anos – estão acabando com os servidores públicos, pois houve uma diminuição de servidores de 500 para 100, sendo que a demanda de serviços aumentou e reduziu o número de empregos, por exemplo, no caso de multas de trânsito que hoje é automatizado;

Tecnologias modernas: a ineficiência do setor público é por não se apossar das novas tecnologias, muita politicagem e pouca qualificação.

Fiscalização e trânsito: a tecnologia é fundamental, veio para ajudar e é um facilitador incrível. Trabalhamos com smartphones na fiscalização de trânsito e sistemas de antenas nos ônibus para cumprirem horário.

Já na Indústria, o que se constatou foi:

Energia: automação em 1980 – Flórida Power, por exemplo, que passou a gerar, transmitir, distribuir e vender energia elétrica. Desde então houve a redução de funcionários de 12.500 para 8.500; utilização de medidores eletrônicos que acompanha em tempo real o consumo de energia e também foram criadas outras empresas que fornecem internet em fibra ótica, criando novas vagas para novos profissionais.

Vestuário: o setor foi atingido em cheio, para roupas infantis haviam 65 bordadeiras que foram substituídas por um rapaz que cuida do sistema que agora faz esse trabalho; com a terceirização as pessoas vão trabalhar em para casa, a informalidade está no fundo do quintal;

Importação: no setor têxtil, por exemplo, a produção de um terno no mercado nacional é de 160 reais, mas vem da china por 45 reais. Atualmente, 95% do que se vende no Brasil é importado da China.

Futebol: está presente nos telefones, jogo eletrônico, microfone eletrônico no jogo de futebol. Por enquanto, vai gerar mais emprego: antes eram o juiz e os bandeiras, agora tem alguém cuidando dos equipamentos online, desenvolvendo, equipe de TI;

No Comércio:

E- Commerce e lojas físicas: tem concorrente violento que é a internet, sendo que no 15º dia a internet bate a venda nas lojas físicas. A loja é concorrente dela mesma, inimiga dos postos do trabalho. Por exemplo, no Magazine Luiza: o trabalhador faz várias tarefas e o número de empregados diminuiu (o vendedor abre o computador, pesquisa os produtos, as especificações, emite pedidos, os requisites de entrega). O profissional tem que ter um mínimo de compreensão de sistema, entender de tecnologia, têm que ser criativo e encantar os clientes, porque hoje se compra em qualquer lugar sem custos adicionais.

Umas das vantagens do e-commerce é a diferença de preço nas compras na internet, que são mais baratas.

Mecânica de veículos: a tecnologia avançou bastante: o mecânico hoje é um trocador de peça (mudança de qualificação), o computador analisa o defeito e indica o que fazer, que peças e componentes trocar e como fazer isto. A tecnologia não eliminou serviço, mas mudou o profissional;

Supermercados: a internet melhorou a vida de todos nós. No supermercado amanhecíamos fazendo balanço físico das lojas, diminuiu esse serviço, hoje se faz automaticamente pelo sistema; cartão ponto também diminuiu gente, mas melhorou a precisão dos serviços no controle das empresas.

Corretagem de imóveis: positiva para o progresso da humanidade, mas negativa em muitos pontos. Da perspectiva do trabalhador não ganhamos a guerra da tecnologia, não conseguimos parar e temos que nos adaptar, levar para frente. O corretor é autônomo e sem ganhos fixos. A tecnologia beneficia quem se adapta valorização profissional.

No meio rural:

Um dos setores mais tecnológicos do país, hoje 200 homens são substituídos por uma máquina.

E por fim, no setor das finanças:

Transporte de valores: o carro forte absorveu os funcionários dos bancos, pois faz a compensação do banco. A tecnologia não nos atingiu, a tesouraria dos bancos passou para o carro forte que faz a custódia do dinheiro, faz o clearing do vale transporte que está acabando com o cartão refeição. Os cartões estão parando com a circulação física do dinheiro. De 2.000 trabalhadores passamos para 500 funcionários, hoje trabalhamos menos.

Bancos: mudança muito radical com a tecnologia de informação, pois o papel moeda deixou de circular. Os mais antigos ainda querem dinheiro. A mudança é radical: cartões, transações online, o caixa eletrônico é um pequeno banco que faz depósito, saque, paga contas, faz transferência online diretamente com o cliente e sem intermediação do bancário.

Por Daniel Moraes – Colaborador IAE/UGT

E com você? O que aconteceu com o avanço da tecnologia no seu trabalho?

Compartilhe suas experiências e vamos debater o futuro de trabalho e as políticas públicas necessárias para proteção do trabalhador diante da automação!