O trabalhador urbano não é apenas uma mão-de-obra, um recurso humano, mas um cidadão que quer viver melhor na sua cidade e cujas reivindicações nem sempre estão contempladas na pauta sindical. O trabalhador precisa morar, ter um teto, é o principal demandante das moradias do Programa Minha Casa, Minha Vida. Por outro lado o déficit habitacional é formado por desempregados que não tem renda fixa para adquirir uma moradia digna. Antes do déficit habitacional ainda há o déficit de trabalho.

O trabalhador precisa se movimentar, se deslocar da sua moradia até o trabalho e retornar à sua casa. É o principal gerador de viagens e da mobilidade urbana. Mesmo quando se movimenta para estudar é, ainda, em grande parte um trabalhador e estudante.

É o trabalhador que enfrenta as enchentes, os alagamentos, assim como os deslizamentos. Ainda tem que enfrentar os riscos de furtos, roubos e outras ações sobre a sua segurança.
O trabalhador urbano dedica cerca de 40 horas da sua semana para o trabalho e descontando 42 horas em média de sono por semana, lhe sobram ainda 86 horas por semana, para lazer, para compras, para estudar, para outras atividades urbanas. Dessas 86 horas, ele pode gastar em média 28 horas por semana, no trânsito, com metade por conta dos congestionamentos, para o deslocamento para o trabalho. A sua qualidade de vida na cidade é comprometida pela imobilidade urbana.

No entanto, a sua representação, através dos sindicatos, se refere a apenas as 40 horas no trabalho. Quando muito ele luta para incorporar as horas de deslocamento como horário de trabalho.
Ele não é representado pelos sindicatos para melhoria das condições de mobilidade urbana, moradia, combate aos acidentes naturais, segurança, educação, saúde e outras condições fundamentais da sua qualidade de vida urbana.

O trabalhador, enquanto cidadão, só tem representação genérica e difusa, pelos partidos ou específica quando se associa a alguma organização da sociedade, fora dos sindicatos.
Os Sindicatos dos Trabalhadores não representam o trabalhador cidadão, ou o cidadão enquanto trabalhador. Não há um sindicalismo cidadão, de fato, porque os sindicatos não cuidam das questões de cidadania do trabalhador, mas apenas dele enquanto trabalhador. Que posições ou proposições tem os trabalhadores, através dos sindicatos sobre a melhoria da mobilidade urbana?
O que os trabalhadores tem a dizer sobre os acidentes naturais?

Alguns sindicatos tentaram se envolver nas questões ambientais, do desenvolvimento sustentável, mais por mobilizações pessoais, de alguns dos seus integrantes, não como atuação institucional.
Os trabalhadores, enquanto em atividade ou se deslocando, são contribuintes da emissão de gases de efeitos estufa. Precisam ou devem eles mudar comportamentos ou adotar ações para redução da emissão desses gases?

Alguns sindicatos abrigaram minorias, para apoiálos nas sua lutas, como as mulheres, os negros, indígenas e outros. O que é uma expressão de cidadania. Porém não se engaja nas lutas da maioria: a maioria que fica presa nos engarrafamentos, por exemplo.

O que querem os trabalhadores em relação à sua mobilidade urbana? Uma suposição é de que os trabalhadores se utilizam predominantemente do transporte coletivo público e portanto eles devem reivindicar e apoiar as inciativas públicas para privilegiar o transporte coletivo, em detrimento do individual. Porém cabe indagar: quem são os motoristas dos automóveis, do transporte individual. Seriam por acaso, todos não trabalhadores? Quais são as principais aspirações do trabalhador: ter um transporte público de qualidade ou ter o seu carro?
Os sindicatos devem, como tarefa inicial, entender as efetivas aspirações dos seus associados, enquanto cidadãos.