Fazendo um rápido balanço de 2017, com vistas a 2018, tendo como referência a possibilidade de eventos previstos e eventos imprevistos.

Não chega a ser um “método confuso “ para descrever e analisar a realidade….pois a História é sempre contingente, com poucas pontes fixas para permitir observações de médio e longo prazo. Especialmente na quadra histórica em que vivemos, marcada pelas contradições entre a globalização da economia e a exacerbação política do nacionalismo, em diversos lugares do planeta. Dois eventos contemporâneos marcam, exemplar e dramaticamente, esta contradição.

Em 2016, antes mesmo da vitória de Donald Trump à presidência dos EUA (novembro), houve o plebiscito que autorizou o governo britânico a sair da União Europeia, sob uma radical inspiração de xenofobia e uma interpretação antiglobalização, capitaneada pelo ultranacionalista Partido da Independência Britânica (UKIP). O UKIP não tem frequentado os postos hegemônicos do poder britânico, a não ser sob eventuais alianças com os mais poderosos (Partido Conservador, Partido Trabalhista e Partido Liberal). Mas, como estava previsto, indicado por acontecimentos antecedentes à consulta, que conectaram politicamente no imaginário dos eleitores o aumento do desemprego, a baixa taxa de crescimento do PIB e a deterioração dos serviços públicos à uma generosa política migratória que estaria favorecendo a entrada, principalmente, de muçulmanos e provenientes do Leste Europeu – regiões em conflito, sob instabilidade e deterioração econômica – a população votante reagiu emocionalmente e preferiu ver o Reino Unido fora da União Europeia (BREXIT).

Havia motivos objetivos, palpáveis, que poderiam ser explorados por lideranças mais radicais a favor do nacionalismo econômico e da xenofobia. Assim aconteceu, com razoável margem de previsibilidade, pois até entre militantes trabalhistas houve adesão à política isolacionista. O próprio Primeiro Ministro de então, David Cameron, propositor do referendo, ao vislumbrar os efeitos da proposição, renunciou ao posto imediatamente. A administração da crise ficou depositada no novo governo,  também conservador de Theresa May. Autocríticas dos conservadores apontam para os custos da péssima transação desejada: saída de capitais do Reino Unido, multas e indenizações estratosféricas devidas à União Europeia, etc. Tudo que poderia ser previsto ocorreu; e ainda sob pesadíssimos custos.

Os eventos históricos deflagrados pela escolha de Donald Trump podem ser identificados como “previstos”, dada a espontaneidade do presidente eleito junto às redes sociais, seu acirrado conflito com a maioria da imprensa liberal do país, sua xenofobia discursiva convivendo com sua participação pessoal (e de suas empresas) em negócios em muitos países, de modo diversificado, etc. Também, conforme anunciado na campanha e agora confirmado pela aprovação do Congresso Nacional dos EUA, a implementação de uma extensa reforma tributária baseada no modelo de aumento da oferta de fatores baixando impostos e incentivando a capacidade de investimentos dos mais ricos. Isso já funcionou relativamente bem na Administração Reagan, mas nada indica que nas atuais circunstâncias de acirramento da competividade industrial mundial e na intensa financeirização da economia, que o êxito será repetido. Os incentivos às empresas, incluindo o rebaixamento do imposto de renda ( de 34% para 21%), poderão resultar, entre outras coisas, em recompra de ações no mercado de capitais, maior distribuição de dividendos aos acionistas das empresas, aumento dos ganhos do executivos, e assim por diante.

Isso porque, hoje, a demanda geral não está aquecida e é uma das causas das taxas de inflação e de juros baixas. Esta combinação de fatores já encerra uma outra previsão: a dívida pública dos EUA deve aumentar em cerca de US$ 1 trilhão em poucos anos, já extrapolando a possível administração de TRUMP.

No caso dos EUA há certas doses de imprevisibilidade. Algumas estão ligadas às próprias eleições havidas, ainda com ruídos sobre participação de outros países no evento e mesmo de processos que buscam atingir pessoalmente a figura do Presidente.

Diante do pretenso “isolacionismo” de Trump, e devido ao processo intenso de globalização que sobrepõe os interesses das empresas aos próprios projetos do Estado norte-americano, algo também previsível é a provável mudança sede fiscal de muitas empresas – de distintos países – mas de caráter já multinacional porque estão girando em vários mercados e absorvendo fundos internacionais de capital – para os Estados Unidos.

No caso do Brasil, levando-se em consideração a política econômica norte-americana agora em processo de consolidação, isso envolve possibilidades acerca de empresas como Vale, EMBRAER, Brasken, WEG, Gerdau, etc. Como, justamente, já é visível na possível   associação entre BOEING e EMBRAER, como indicativo da nova face da conjuntura, que vai sendo adensada por interesses cruzados de natureza internacional.

Nos dois casos, BREXIT e TRUMP, havia a possibilidade de previsão, pois ambos processos foram cercados de mobilização da vontade política das populações respectivas, com muita divulgação de políticas e metas a serem alcançadas, invocação à participação ativa, e assim por diante. O caráter de imprevisibilidade é essencialmente devido à reação dos outros, que não pode ser conhecida de antemão; bem como à debilidade e lacunas das análises que sustentam as políticas vencedoras.

Envolvido na cena internacional, de modo crescente, o que é previsível no caso do Brasil em 2018?

O protagonismo do Judiciário tende a confirmar que a essência dos sistema de representação política não sofrerá alterações. As regras eleitorais, de outro lado, confirmarão o poder de elites tradicionais junto aos partidos políticos existentes. A dubiedade das regras de financiamento, provavelmente, confirmarão condições já conhecidas, com apoios financeiros cruzados (públicos e privados). Previsivelmente, teremos muitos candidatos aos cargos majoritários, com horários “gratuitos” adjudicados de forma muito díspare, assim favorecendo a recondução dos atuais ocupantes dos cargos.

Os debates entre os presidenciáveis darão atenção aos temas centrais na medida da pressão da opinião pública, especialmente por meio das redes sociais e das organizações sociais (sindicatos, etc.). Pois, na inércia do movimento, continuaremos em alto nível de abstração, que ignora as reais condições tais como o déficit fiscal, a tremenda dependência da dívida pública que consome 44% do Orçamento Geral da União (caso único no mundo), além de termos um Orçamento com apenas 10% de recursos disponíveis sem vinculações constitucionais.

O resultado geral? Provavelmente teremos dispersão grande de votos entre partidos e candidatos. Ao final, a eleição de postos majoritários com minoria de votos gerais e dependendo de intensas e permanentes negociações com blocos de partidos. Exatamente como hoje, e como ontem!

O fato mais notável, nestes últimos 18 meses, com o impedimento de Dilma Rousseff e a ascensão de Michel Temer, está na falta de previsão, por parte dos movimentos sociais e principalmente sindicais, sobre o comportamento da “nova ordem” em instalação. Desta vez, foi uma real guinada e não uma intervenção pontual – aliás como muitos analistas previam desde 2012, com o recrudescimento da crise fiscal e da inoperância estatal. Neste contexto, agregue-se a “reforma trabalhista”, já em franca instalação, seguindo os padrões recomendados pelas agências multilaterais de crédito (FMI, World Bank, etc.) e copiando as decisões de países hegemônicos na ordem econômica mundial. Sem surpresas e com alto teor de previsibilidade.

O imprevisto foi de natureza política, pois as entidades e os interesses atingidos não estavam preparados para encarar esta reforma social regressiva…

 

Benício Schmidt – Colaborador do IAE/UGT