Os fenômenos eleitorais mais recentes, em grande parte do mundo, apresentam duas particularidades: vitórias eleitorais de forças conservadoras ou mesmos regressivas socialmente e alta instabilidade inscrita no processo de formação dos governos. Este segundo fato depende, obviamente, da natureza do sistema político, se presidencialista ou parlamentarista.

No caso exemplar mais recente temos as eleições no Reino Unido (Inglaterra, Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia). Ano passado os conservadores, liderados por David Cameron, resolveram encampar a campanha pela saída da Grã Bretanha da União Europeia através de consulta plebiscitária, juntamente com a chamada de eleições gerais ao Parlamento. Venceram as eleições, mas a vitória do BREXIT abalou a legitimidade do primeiro-ministro. Ele renunciou em favor da nova líder, Theresa May.

Os custos enormes da saída da União Europeia, sob diversas formas de indenizações e concessões não foram dados a conhecer à opinião pública. Houve, então, enormes pressões por parte de países como Alemanha e França para que os britânicos efetivassem sua saída, com o cumprimento das penalidades financeiras correspondentes. Houve, novamente, uma crise de legitimidade abalando o governo conservador, que chamou por novas eleições e agora, embora nominalmente vitorioso, luta para compor com a União Conservadora da Irlanda do Norte o seu próprio gabinete governamental. Os trabalhistas, liderados por Jeremy Corbyn tiveram enorme progresso e prometem voltar ao poder, brevemente, com todas as possibilidades.

Por parte de uma nova e forte aliança entre Merkel e Macron (Alemanha e França), a Grã Bretanha poderia e deveria se manter no bloco europeu (27 países). Agora, há fortes pressões sobre as lideranças dos grandes partidos britânicos, e portanto Theresa May não verá seu problema de instabilidade resolvido com a adesão oportunista do Democratic Unionist Party da Irlanda do Norte. Implícitas nas novas pressões do eixo Alemanha-França estão, inclusive, questões de segurança internacional contra o terrorismo, bem como a ausência crescente dos Estados Unidos no bloco do Atlântico Norte, anunciada  por  Donald Trump.

Nesse quadro de grandes mudanças e permanentes instabilidades, a América Latina está perfeitamente “adequada” ao panorama contemporâneo. Nos últimos 32 anos tivemos 16 presidentes depostos, com mandatos interrompidos, por várias razões. O desempenho econômico da região está estagnado com indicadores medíocres, com raras exceções devidas ao mercado de commodities, como é o caso de Chile, Peru e Bolívia, no momento. As taxas de juros continuam altas e as taxas de desemprego igualmente.

Todavia, ao Brasil, de modo especial, abre-se uma nova oportunidade devido à recente tentativa de  relativo isolamento comercial recente por parte dos Estados Unidos. Grande absorvedor da produção mundial de bens e serviços, os Estados Unidos tem usado seu poder para incorporar enormes áreas de influência geopolítica. Isso se dá pelo seu poder de consumo, bem como pelo fato do dólar ser reserva de valor como moeda consensual no mercado internacional.

Ao longo da Guerra Fria, os Estados Unidos abriram seu mercado interno para integrar à sua área de influência países como Japão, Coréia do Sul e Taiwan – natural área de influência da Rússia e da China – bem como a Alemanha Ocidental, junto ao Leste Europeu. Esses países funcionaram quase como “departamentos” da grande economia norte-americana, seja como fornecedores, seja como consumidores de produtos os mais diversos, sempre com alto valor agregado.

O mesmo não ocorreu com a América Latina, que aparentemente agora regride à região fornecedora de commodities agrícolas e minerais, basicamente. Inclusive a produção de “bens intermediários” para exportação tem diminuído, relativamente. Dado o conjunto de situações e especialmente com a insegurança política e econômica argentina, abre-se ao Brasil mais uma oportunidade para a expansão das exportações, de produtos primários a bens intermediários, aos Estados Unidos. A complementaridade das economias, a brasileira e a norte-americana, tende a se intensificar com a nova onda de fusões e novos investimentos dos Estados Unidos no Brasil, já praticamente o dobro do ano de 2016 inteiro.

Após o fim da União Soviética, os USA abriram seu mercado para a China, domesticando-a. Mercado aberto, expansão das fronteiras norte-americanas pelo mundo, diplomacia expansionista. Obama lidera o TPP (Acordo de Cooperação Transpacífico), excluída a China. A China, hoje, é concorrente à hegemonia norte-americana, inclusive porque portadora de relevantes porções de suas reservas financeiras, sob títulos de sua dívida pública. No geral, com a ascensão de Trump e sua retórica confusa, além das contradições entre USA-China, abrem-se novas oportunidades. Uma lástima que o Brasil esteja tão ingovernável!

Uma possibilidade, que ajuda a superar a confusão político-institucional, está, mais uma vez, dada pelo forte crescimento do setor agropecuário (13% anual), provocando um aumento adicional da renda de pessoas e famílias, empresários e trabalhadores, pelo aumento da demanda adicional por bens e serviços – descontadas as tendências por poupança e importação de mercadorias. Verificações de publicações econômicas especializadas indicam que a procura por novos bens e serviços aumenta nos estados com maior crescimento do setor primário, especialmente em circuitos de exportação.

As delações do Grupo JBS têm tido seus efeitos deletérios controlados pelo mercado, aqui e no exterior. Seja porque seus ativos estão sendo postos a venda, como forma de garantia  aos acionistas, seja porque devem ter havido acordos prévios com autoridades estrangeiras, antes do próprio processo delator.

A justiça tem acompanhado a globalização econômica; pois tem havido expansão unilateral das leis e da judicialização norte-americana. Juízes, tribunais e demais autoridades passam a ser globais. Isso é dado pela cooperação internacional, bem como pela variada legislação, como o Anti-Corruption Act, como o Anti-Terrorism Act, por exemplo, entre outros instrumentos da mesma natureza. As impugnações e demais punições exigem a existência de contas bancarias nos USA, propriedades e transações em dólar. Condições cumpridas pela JBS nos Estados Unidos.

Assim sendo, curiosamente, o discurso isolacionista de Trump e as correções internacionais sobre os desmandos dos “campeões nacionais brasileiros”, indicam novas aberturas de oportunidade ao Brasil neste mundo instável e conturbado.

 

Benício Schmidt – Colaborador do IAE/UGT