No século passado, o panorama demográfico mundial esteve orientado basicamente pela análise das taxas de natalidade, sobrevivência da prole e mortalidade. Os países se preocupavam em observar o crescimento de suas populações, por todas as implicações econômicas que o fenômeno envolve, contabilizando nascimentos e mortes, além das migrações.

Na segunda metade do século a inflação da natalidade nas nações desenvolvidas, o famoso baby boom, supriu as enormes baixas causadas pelas guerras mundiais. Os avanços na medicina e na indústria também determinaram melhores condições de sobrevivência dos recém-nascidos e crianças, permitindo que uma parcela muito mais representativa dos nascidos atingisse a idade reprodutiva. A ampliação dos direitos previdenciários e trabalhistas pelo Estado Providência, somados a esse crescimento populacional, forçou as nações a analisarem com preocupação as taxas de fecundidade, objetivando garantir o crescimento populacional mínimo que permitisse às gerações jovens sustentarem a economia e o sistema previdenciário das gerações de seus pais, e assim sucessivamente, mas sem perder de vista os limites territoriais e de capacidade de fornecimento de serviços públicos.

No entanto, não foram apenas as variáveis tangentes à fecundidade e longevidade que interferiram na demografia após a segunda guerra mundial. A industrialização se tornou um fenômeno mundial, ainda que lentamente para boa parte da África e Ásia, mas de modo muito semelhante na América e Europa. Com o aumento do emprego na indústria, sobretudo pelo crescimento intenso nos setores de bens de consumo, cresceu também a população das cidades.

O panorama demográfico se alterou pela migração intensa do campo para as cidades, desde a migração para as capitais e polos de atração, até o desenvolvimento urbano de cidades antes predominantemente agrícolas. Essa migração, além da própria alteração no modo de trabalho, alterou profundamente o comportamento reprodutivo das novas gerações, e produziu alterações qualitativas e quantitativas nas taxas de natalidade. A idade média para as uniões matrimoniais e para a reprodução aumentou, enquanto o número de filhos por casal diminuiu.

A população começaria a decrescer após poucas gerações, ainda que as taxas de longevidade tenham crescido ao longo deste mesmo período. Vale lembrar que estes idosos que tendem ter uma vida cada vez mais longa vinham de uma geração com muitíssimas baixas, devido às guerras e epidemias que marcaram a primeira metade do século. Assim, o panorama mostrava-se crítico: a tendência a uma longevidade cada vez maior, com um crescimento populacional cada vez menor.

Essa é a conta básica que os demógrafos tomaram como norte, e nela está negligenciada ainda outra transformação no padrão demográfico causada pelas mudanças no modo de vida das populações: o amadurecimento das massas. O demógrafo espanhol Julio Pérez Díaz analisa o fenômeno no livro “O Amadurecimento das Massas” (Verbena Editora, 2014), explorando as diversas dimensões da redução da mortalidade infantil e da expansão da longevidade.

Aponta para elementos absolutamente novos na vida das populações, resultantes dessa nova geração madura e populosa, convivendo com muitas outras gerações ainda presentes e atuantes. A verticalização das relações geracionais, a mudança nas relações familiares, tendendo a uma presença de mais gerações envolvidas no convívio cotidiano, e o acúmulo de capital intelectual por essas diferentes gerações são demonstrações, segundo Díaz, de que a questão demográfica atualmente aponta para horizontes muito além da simples questão previdenciária.

No que tange à questão previdenciária, talvez seja hora de uma análise mais profunda da questão, analisando se há sentido nesta maneira de pensar os custos de manutenção do sistema sempre sobre a contribuição dos ativos para remunerar os aposentados. É questão espinhosa para os economistas, visto que este sistema tem que garantir não só o pagamento a contribuintes, mas também outros direitos trabalhistas. No entanto, a resposta do Estado não pode ser a restrição de direitos pela incapacidade de honrar os compromissos.

Para além desta questão, é importante observar que o Brasil tende a ver este fenômeno ocorrer neste momento, o que pode ter consequências positivas para a nossa população caso possamos pensar inovações que visem valorizar os aspectos positivos. Pela primeira vez na história, teremos um contingente considerável de pessoas convivendo, trabalhando juntas e, portanto, compartilhando experiências e formas de pensar, com uma diferença de idade de mais de meio século. Bem aproveitado, esse pode ser um elemento muito positivo para a educação, o trabalho e diversos campos da vida social e da economia.

Benício Schmidt – Colaborador do IEAUGT