A situação geral do Brasil é hoje reflexo, em certa medida, de políticas econômicas hegemônicas adotadas pelo mundo afora. Mas, entre outras características, o País apresenta adoções de políticas econômicas e sociais experimentadas internacionalmente, mas em momentos muito distintos. Vejamos.

Com a ascensão de Lula ao poder, houve sempre uma enorme tensão entre orientações fiscalistas e as propostas desenvolvimentistas. O bom resultado da exportação de produtos primários, atingindo seu máximo êxito em 2010, concomitantemente com a “descoberta” do pré-sal pelo complexo da Petrobras, criaram uma expectativa enorme de desenvolvimento a curto prazo, por meio, fundamentalmente, de investimentos em educação, saúde e inovação tecnológica.

Constituiu-se um Fundo Soberano, a exemplo de países como a Noruega, para melhor executar políticas fundamentadas pelo provável êxito da exploração de petróleo em lençóis profundos. A performance foi tão boa, do ponto de vista dos indicadores de intercâmbio comercial internacional, do crescimento do emprego e da oferta de crédito facilitado ao mercado de bens duráveis, que as grandes manobras financeiras comandadas por Henrique Meirelles no Banco Central passaram despercebidas.

Os grandes bancos cresceram em tamanho e lucros, pela continuidade de políticas anteriores, baseadas em enormes custos de transação financeira e juros compatíveis com a administração possível da dívida pública; a Bolsa de Valores (mercado de capital variável) teve momentos de alta e posterior baixa sistemática, sublinhando uma forte característica do emergente Capitalismo Brasileiro: o financiamento das grandes empresas vem do BNDES, com ajuda explícita do Tesouro Nacional, não necessariamente do Mercado de Capitais.

Uma curiosa e quase original solução capitalista para o desenvolvimento do moderno Brasil. Em parte significativa, especialmente depois da ascensão de Luciano Coutinho à presidência do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), os novos processamentos das relações entre crédito estatal subsidiado e grandes aglomerados destinados a serem “campeões” foram baseados na experiência da Coreia do Sul, pós guerra.

Vale a comparação entre Coréia do Sul e Brasil. País dizimado pelas batalhas na região, tendo servido de base às forças militares norte-americanas e governado por uma elite militar-tecnocrática implacável, até hoje, a Coreia é um exemplo bem sucedido de certo padrão algo inusitado de desenvolvimento. O seu segredo foi um planejamento central muito rigoroso, aliança estratégica com os Estados Unidos e definição de prioridades baseadas no desenvolvimento de um sistema educacional excepcionalmente bom. Partindo de trás, a Coréia do Sul superou países como o Brasil, Argentina, Chile e outros, em duas décadas.

Hoje, uma potência tecnológica e industrial, lidera setores estratégicos mundiais, muito além da linha de produção de produtos domésticos e altamente conhecidos da população mundial.
Uma das características centrais do desenvolvimento coreano contemporâneo foi o suporte dado pelo Estado a certos grupos, considerados estratégicos para o que era desejado na definição do papel internacional da Coreia, sob o modelo dos CHAEBOL, ou seja, grupos industriais favorecidos pelo crédito estatal cumprindo metas estabelecidas em conjunto, entre empresas e órgão de planejamento público. No Brasil, com Luciano Coutinho como seu principal entusiasta, além de setores preponderantes em órgãos como o IPEA (Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada/ SAE), foi este o caminho adotado nos últimos anos.

Diferentemente do corte altamente tecnológico coreano, como nos incentivos ao setor aeroespacial, as nossas prioridades aparentemente foram decididas sob a força de pressões políticas e eventos conjunturais. É o caso do forte investimento em empresas produtoras de commodities, como frigoríficos, sem a necessária agregação de valor na sua cadeia produtiva, sem nenhuma inovação tecnológica. Além disso, os nossos “campeões nacionais” incluem grupos beneficiados com créditos subsidiados e com péssimo desempenho, como foi o caso do Grupo X (Eike Batista), hoje em liquidação.

Um fato interessante, ao longo deste processo, foi a construção de um modelo de formação de grandes conglomerados, quase-monopólios, que ajudam a deturpar as mínimas condições de competividade e de geração de empregos. Velha polêmica econômica, a oligopolização da economia certamente diminui os custos operacionais das próprias empresas envolvidas, mas não necessariamente aumenta a possibilidade de mais empregos, nem favorece a conexão entre trabalho e inovação.

As consequências deste quadro são evidentes para o mercado de trabalho e para os trabalhadores, de modo especial. Com o envelhecimento relativo das populações, inclusive nos países emergentes (China. Brasil, África do Sul, Índia etc.) está em questão nosso sistema previdenciário; bem como as velhas suposições de um crescimento sem limites para todas as gerações. O mercado de trabalho está destinado, doravante, a ser pautado pela presença de fatores ligados à inovação e ao encurtamento dos processos diferenciados no campo da produção.

Este encurtamento está ligado às novas possibilidades de estocagem de bens e de informação, bem como de diferentes formas de acesso aos mercados disponíveis (e-commerce, por exemplo).
O significado destes movimentos, que embora não sejam tão obviamente notados, são mais rápidos geradores de novidades do que geralmente imaginamos. Trazem consigo novas e velhas questões à pauta dos trabalhadores. O tempo de trabalho diário e o tempo livre, favorecendo o repouso e a disponibilidade intelectual parece refletir sobre a própria experiência e aproveitar a “experiência prática” para eventuais inovações, criações, invenções.

Trazem à tona, também, a necessidade de um contínuo processo de aprendizagem e de absorção de novas informações produzidas por centros de pesquisa científica. Este processo- hoje em dia- está desmistificado na sua sacralidade, dada a existência de todos canais disponíveis na Internet. Muitas inovações poderiam ser criadas por trabalhadores em linha de produção, tivessem eles mais acesso aos meios de informação, a partir de experimentos e de relatos provindos dos centros de pesquisa, dentro e fora do setor produtivo.

Os tempos de um fácil incremento do Produto Bruto Nacional, sustentado por enormes massas de trabalhadores jovens, estão acabando. Contraditoriamente, a população está envelhecendo, o passivo previdenciário aumenta a economia se oligopoliza e as relações entre isto e a corrupção endêmica (assolando o mundo todo) são favorecidas dado o caráter “político” das decisões econômicas. Diminui-se a competividade, aumentando a concentração econômica – que depende de decisões políticas como sabemos – aí sendo gerada uma férrea aliança entre ocupantes do poder (político e econômico) que, efetivamente, não favorece à democratização do mundo do trabalho. Além disto, expõe a sociedade a turbulências de toda espécie. Sempre contra os trabalhadores, peças subordinadas neste complexo processo.

Benício Schmidt – Colaborador do IEAUGT