A crise financeira internacionalizada a partir do Ocidente em 2007-2208 é considerada a pior desde 1931, ainda que suas conseqüências possam parecer modestas. A crise desafiou a existência de alguns pilares fundamentais da dominante ideologia neoliberal, ainda que essa não tenha sido posta sobre controle. Com poucas exceções, os bancos não deixaram de existir, os seus dirigentes foram raramente acusados de malfeitos; sendo que o resultado dos desastres  procedimentais foram pagos, fundamentalmente, pelos contribuintes. Isso ocorreu de muitas maneiras e modos. Alguns foram feridos em suas próprias poupanças e fundos de investimento, que se esfumaçaram; assim como a grande maioria visível viu feridos seus direitos e possibilidades de garantir suas próprias moradias. Resultados da operação de alavancagem e multiplicação de financiamentos sobre o mesmo bem, geralmente um  imóvel comprado em prestações financiadas junto a bancos e entidades financeiras montadoras de arapucas financeiras.

Políticas econômicas subsequentes, especialmente no mundo Anglo-Saxão, têm sido sustentadas essencialmente por políticas monetárias audaciosamente relaxadas em relação à economia real; o que chamam de “quantitative easing” , um afrouxamento dos fundamentos econômicos, pela geração de massa monetária flutuante, com vistas a evitar a depressão pelo encolhimento dos investimentos e dos gastos das empresas e das famílias. Mas, isso não funcionou de acordo ao previsto. A economia ocidental estagnou e aproxima-se, agora, de mais uma década perdida, sem um horizonte otimista pela frente. Indicação disso está na ocorrência, em muitos países hegemônicos, de taxas de juros negativos. O cidadão paga para que guardem seu dinheiro, mesmo com prejuízos nominais!

Ou seja, quase uma década depois da grande crise, começamos a avaliar a direção dos ventos causada pelo evento devastador, com seus devidos amadurecimentos e conseqüências políticas. A política de relaxamento monetário foi um desastre, uma hipótese de fracasso frente ao mundo real, marcando universalmente um descompasso com as décadas anteriores de êxito e alto crescimento econômico, no período pós Segunda Guerra Mundial. Curiosamente, política e intelectualmente, continuou sendo a rainha do espetáculo, sem muita contestação. Partidos políticos de direita, de centro e de esquerda aderiram a políticas neoliberais já instaladas, mesmo constatando os equívocos e más conseqüências nos diversos cenários nacionais, por meio do recrudescimento da concentração de riqueza, do desemprego estrutural e da manutenção de baixas taxas de crescimento; contando ainda com o constante endividamento forçado dos consumidores, de imóveis às prestações junto a empresas privadas de educação superior.

Um caso dramático pode ser ilustrado nas ações e programas propostas pelos Novos Trabalhistas, dissensões do clássico trabalhismo partidário frente à crise e suas conseqüências. Eles não sabiam, nem descobriram outros paradigmas de pensamento. As idéias hegemônicas neoliberais transformaram-se em senso comum. Mas sabe-se, agora, que esta hegemonia não tem podido enfrentar os desafios do mundo real.

Os sinais políticos do fracasso ficam evidentes nos movimentos massivos de opinião pública contra os bancos, os banqueiros e os líderes empresariais. Por décadas eles não eram acusados como culpados pelas fissuras da ordem capitalista eivada de desregulamentações, mas eram tidos como personagens corretos e adaptados aos papéis sociais e políticos que conduziam o êxito, baseado no crescimento constante e na estabilidade do nível de emprego, apesar das eventuais crises sistêmicas sublinhando as deficiências na educação, na saúde pública e nos custos de transporte, em todos os níveis.

Agora, todavia, estas estrelas parecem em decadência, juntamente com as plataformas políticas baseadas na existência da luta de classes. O efeito da crise financeira enfraqueceu sobremodo a confiança e a esperança na competência das elites governantes. Ou seja, com origem na economia, estamos presenciando o início de uma ampla crise política de representação.

Porém, as causas dessa crise política, bastante evidente nos dois lados do Atlântico, são mais profundas do que a crise financeira e suas possibilidades de recuperação por meio dos ciclos da economia de mercado, fortemente dependente das demandas da China e da Índia, por exemplo. As causas da crise política vão ao coração do projeto neoliberal, que data dos anos 1970 com a ascensão de Reagan e Thatcher ao poder, abarcando a ideia central de um mercado global de bens, serviços e capital. O sistema de regulamentação bancária foi desmantelado nos Estados Unidos nos anos 1990 e no Reino Unido em 1986, criando as condições para a crise de 2008.

A luta por maior igualdade na pirâmide das rendas foi abandonada pelo mercado, como um impedimento ao crescimento do produto agregado. A imigração foi incentivada, as regulamentações do mercado de trabalho reduzidas ao mínimo, os impostos reduzidos e foi aceita como normal a crescente “evasão fiscal” por parte das grandes corporações. Deve ser sublinhado que a era neoliberal não teve um histórico de  boa performance. O período mais dinâmico do crescimento econômico ocidental foi entre o fim da II Guerra Mundial e o início dos anos 1970, a era do capitalismo de bem-estar e do Keynesianismo. Neste período a taxa de crescimento econômico geral foi o dobro do período neoliberal, de 1980 até agora. A dimensão mais desastrosa do período neoliberal foi a combinação de um relativamente grande crescimento econômico como indicadores de crescente e persistente desigualdade; recrudescendo mesmo os índices de pobreza absoluta.

Isso foi largamente ignorado, mas reaparece agora de modo mais dramático, especialmente nos Estados Unidos. Um das razões do crescente descontentamento das massas europeias e norte-americanas. A demora da reação, geralmente sem direção específica mas movimentando enormes massas das populações deve-se, sem dúvidas, à força das ideais centrais do neoliberalismo, que consolidaram crenças e esperanças em melhores tempos sob o mesmo modelo de condução política e econômica. A média salarial de trabalhadores full time nos Estados Unidos, hoje, é mais baixa do que há quarenta anos! As rendas dos 90% menos aquinhoados da população têm se mantido estagnadas por trinta anos!

São as causas mais evidentes do descontentamento popular e da revolta contra os quadros clássicos de dirigentes de partidos políticos, de todas as orientações ideológicas em particular. A era da hiper-globalização tem funcionado em favor do capital contra o trabalho: acordos internacionais, celebração secreta de particulares compromissos, sob o controle das corporações empresariais, com os trabalhadores, sindicatos e cidadãos excluídos do jogo.

Por conseqüência, a vida sindical tem sido criminalizada. No caso europeu e norte-americano uma das armas foi o enorme incentivo à imigração; que agora, com as diferenças étnicas e religiosas, vai consolidando um quadro de ainda maior dificuldade de gestão.

Esse é o quadro maior que envolve os países “emergentes” como o Brasil. Ainda que não estivessem na origem da crise financeira internacional, sofrem suas consequências inevitáveis, dado o processo de contínua globalização econômica. Lições para um aprendizado rápido, mesmo que aqui nossos problemas econômicos exigem – antes de tudo – uma reorganização das Contas Nacionais. Mas, a partir disso, cabe refletir sobre medidas e políticas possíveis para evitar as decorrências de um ajuste já em andamento, nas suas versões mais perversas. De outro lado, no Ocidente Hegemônico, como na América Latina, os efeitos políticos têm se manifestado pelo descontentamento com os dirigentes dos Estados e pelas pressões à representatividade dos partidos políticos existentes.

 

Benício Schmidt – Colaborador do IAE/UGT