Os fluxos migratórios estão associados em maioria ao trabalho, à segurança, à prosperidade e ao bem-estar; é assim que os polos de atração migratória costumam ser aqueles com índices econômicos e sociais mais elevados ou com dinâmica econômica mais intensa. A parcela de sonho e ilusão presente nesse processo é evidente quando confrontada com os números, os casos e os fatos. Em todo o mundo o status de migrante está, com poucas exceções, coligado à violência social, à precariedade laboral, à semiescravidão, rejeição e truculência institucional.

A dimensão do trabalho desempenha um papel significativo, quando não determinante do lugar que um imigrante pode ocupar nas sociedades-destino. Em face das desigualdades mundiais, muitos migrantes são importados ou utilizados como mão de obra mais barata, atendendo à demanda por empregos de baixa qualificação ou pouco atrativos para a força de trabalho interna. Recorrentemente, esses trabalhadores ‘desnacionalizados’ não conseguem acessar de maneira equânime as mesmas oportunidades e proteção do Estado a que os “nacionais” tem direito.

A posição de precariedade que os migrantes geralmente ocupam nas sociedades estimula reflexões sobre a eficácia e adequação das políticas e controles migratórios, e também sobre a extensão do “pavor à diferença” em nível societal, a chamada xenofobia. Esta pode refletir uma enfraquecida generosidade social ou compartilhada em variados graus, e também refletir a percepção de que o estrangeiro em condição mais frágil pode ameaçar nacionalidade, etnia, segurança ou fartura sociais.

Os dois grandes modelos de integração dos imigrantes no ocidente – o assimilacionismo francês, inspirado na fórmula republicana tradicional, e o multicultural dos países anglo-saxões -estão em crise, sobressaltados por conflitos étnicos e sociais que justificam drásticas reações de estados nacionais e de civis contra o ‘estrangeiro’ que ameaça a segurança nacional e o mercado de trabalho. Daí advém muita controvérsia entre a questão migratória e a dita sociedade nacional, pois muitas dessas tensões e reações podem desencadear atentados contra valores mais universais, como o direito de existir em condições sociais e laborais decentes, livre de perseguições ou preconceitos, independentemente de nacionalidades ou cultura.

As ações políticas de migração e de integração de imigrantes têm falhado em promover até mesmo a igualdade formal dos migrantes legalizados, impondo muitas restrições que dificultam o acesso ao mercado de trabalho, à educação, à cultura, à saúde e à representação dessa população no sistema político e sindical.Uma hipótese é que essas ações ou políticas públicas de migração e integração estãoem grande medida “desprovidas das percepções e das necessidades dos próprios migrantes” (PAJNIK, 2012), não conseguindo endereçar seus anseios e fragilidades nas tomadas de decisão.

Não se exultou em sistematizar uma ideia de integração social que considere os migrantes “parceiros” na comunicação e naimplementação de estratégias adaptativas, pautadas em uma dupla adaptação, isto é, no preparo da população que migra por um lado, e por outro, da população que recebe os novos entes. Há a condição de cidadania formal, aquela dos papeis e da burocracia, e a condição da ‘cidadania sutil’, aquela da aceitação e semelhança sociais, da construção da familiaridade e do sentimento de pertencer.

No segundo caso, o papel da população nacional ou local que recebe os migrantesé basilar. É importante notar que o sentimento da xenofobia tem sido enraizado em populações inteiras por Estados nacionais, escondido em justificativas como segurança nacional e equilíbrio social.

É um desafio ao sindicalismo estimular e orientar os migrantes a se organizar como trabalhadores e como cidadãos (normalmente os migrantes se organizam como gueto, não como sociedade civil ou como classe integrada no sistema produtivo); também desenvolver estratégias capazes de alcançar e beneficiar os migrantes ilegais, perfil mais frágil entre essa população, e disponibilizar espaços de comunicação com o público migrante, tanto estrangeiro como personagens das migrações regionais internas.

Para atingir tais objetivos, é imprescindível contar com capital humano preparado, multilíngue e treinado para escutar, orientar e entender a complexidade da diferença.

Lorena Ferraz C. Gonçalves – Socióloga, mestre em Ciências Sociais (UnB).
Referência
PAJNIK, M. (2012) Migrants as Cheap Labourers in Europe: Towards Critical Assessment of Integration. Peace Institute, Institute for Contemporary Social and Political Studies. Migracijske i etnicke teme 28, 2: 143–163.
FERNANDEZ, B. (2013) Traffickers, Brokers, Employment Agents, and Social Networks: The Regulation of Intermediaries in the Migration of Ethiopian Domestic Workers to the Middle East. In_International Migration Review, Volume 47, Number 4, Pages 814–843.