Ao final dos anos 2000, líderes políticos de esquerda lideravam todos os países principais da América Latina, com a exceção do México. Hoje em dia, estão quase todos em retirada, ou em franca decadência medida em termos de apoio popular e ausência de bons indicadores econômicos e sociais. As novas, ou mesmo veteranas lideranças, vestidas em novos ternos, anunciam consertos na ordem herdada. Voltando aos anos 1990, certos paradigmas do neoliberalismo voltam com força à agenda política.

 

Os casos da Argentina, Paraguai e Peru ilustram incidência de vitórias eleitorais grandiosas. No Brasil, o grupo de Michel Temer substitui o de Dilma Roussef na Presidência e na escala de prioridades valorativas para as políticas públicas; em uma ampla inversão de metas e instrumentos de intervenção no mercado econômico e no quadro das expectativas sociais, agora incitados por pregações diárias dos governantes à opinião pública, exaltando prioridades como “austeridade”, “controle dos gastos públicos”, etc.

 

A nova configuração do poder político brasileiro, com alguma surpresa, foi amplamente confirmado pela população nas ultimas eleições municipais, quando candidatos mais afeitos à tradição de esquerda foram amplamente derrotados nos maiores centros e na maioria absoluta dos centros urbanos nacionais.

 

O mesmo fenômeno ocorreu no Chile, ainda com Bachelet (Partido Socialista) na presidência, mas com enorme avanço de forças conservadoras nas eleições municipais, recentemente. Na Colômbia, México e Venezuela as mesmas tendências têm se manifestado.

 

Devido à mecânica do sistema de classificação de forças em qualquer sistema político, os novos líderes têm sido denominados de “direitistas” e  “conservadores”.  Todavia, frente às circunstâncias reais, nenhuma dessas lideranças têm traços de dominação tradicional-conservadora, de modo estrito. Não propõem formas antigas de capitalismo, nem a volta ao puro recurso de exportação de matérias-primas como modo de integração ao mercado internacional. Pelo contrário, baseiam seus discursos na modernização do parque produtivo, na absorção de capital e tecnologia internacionais disponíveis; bem como nas propostas de reforma política que viriam a atualizar os sistemas de representação eleitoral, aglutinando interesses de modo a permitir melhor gestão do Estado.

 

Na verdade, além de Modernizadores, surgem como Consertadores (Corretores) da ordem econômica herdada de lideranças de esquerda, geralmente contaminados por políticas frouxas de controle fiscal e com baixa eficácia nos investimentos comandados pelo Estado.

Serão eles bem sucedidos na tarefa de “higienizar” a herança?

 

Politicamente são disseminadas amplas esperanças de regeneração do país, com a volta dos fluxos de negócio e com reformas no aparelho de Estado que propiciem menos burocracia, maior concentração em metas estratégicas e em programas de integração ao mercado internacional. Mas, também sobre isso são projetadas muitas preocupações, em função de fatores como o desânimo do mercado internacional, com a concentração mundial cada vez mais aguda do Capital Financeiro e do grau de enorme concentração de riqueza entre os estratos mais altos das respectivas populações. Fenômenos esses que também afetam os Estados Unidos, com ou sem a perspectiva da Administração Trump.

 

Além disso, como reportam experiências internacionais muito conhecidas, a tentativa de soluções de crises sistêmicas de modo emergencial leva geralmente à extrapolações, radicalismos e posturas insustentáveis por parte das elites dirigentes. Muitas medidas anunciadas inicialmente, têm de sofrer correções e mesmo recuos. O que desgasta, sobremaneira, os sistemas e coalizões de poder dominantes.

 

Movimentos cíclicos  de correção de rumos, com inversões de políticas e prioridades,  têm sido característicos da política democrática na América Latina, desde os anos 1980, quando da Era das Transições (América Latina e Sul da Europa, com Portugal, Espanha e Grécia). Novos Presidentes chegaram ao poder com mandatos para acabar com os abusos contra os direitos humanos e outros abusos autoritários de predecessores ditatoriais. Isso, em geral, provocou ondas de descentralização do poder e criação de múltiplas formas de representação da vontade popular, provocando muita instabilidade governamental. A economia foi subordinada aos interesses da liberação e da participação social. A inflação havida foi um dos indicadores dessa conjuntura de transição, tanto na América Latina quanto na Europa.

 

Vieram as políticas neoliberais : correção de desequilíbrios macroeconômicos por meio de desregulamentações e privatizações; e, em muitos casos, com a exceção brasileira, desatenção a programas focados na eliminação da pobreza estrutural.

 

Chegamos aos anos 1990, com assunção massiva de lideranças de esquerda. Com elas a expansão do Estado (investimentos e servidores), forte dependência da exportação de commodities, alimentada especialmente pelo crescimento da China, cujos efeitos têm sido sentidos até agora na forma de frouxidão fiscal, baixas taxas de poupança e investimento, crescentes déficits públicos e aumento das dívidas de governo e das empresas; bem como acirramento das contradições políticas em cada país.

 

O ciclo político compensatório chegou, com a ascensão dos “novos liberais”. Todavia, com exceção da Venezuela, a América Latina não está à beira do colapso econômico. Talvez o maior problema estrutural esteja na profunda dependência regional nas exportações de recursos naturais, e com isso crescente dependência dos interesses da China no subcontinente.

 

Reduzir tal dependência supõe estabelecer Fundos de Estabilização, beneficiando a educação dos trabalhadores, que estarão mais aptos aos mercados que exigem novas capacitações; bem como, incentivar o desenvolvimento de uma Economia de Serviços mais diversificada.

 

Outras medidas cruciais deveriam estar centralizadas na luta contra a corrupção e contra a malversação de recursos públicos , como bem ilustra a atual conjuntura política na Argentina, Brasil e Chile, de modo especial.

 

Portanto, mais do que movimentos de caráter estritamente moralizantes a América Latina tem de confrontar um ambiente e uma quadra histórica que exige mais e seguras transformações.

 

Benício Schmidt – Colaborador do IAE/UGT