As cadeias produtivas se formam a partir de atores sociais e de processos ou etapas de produção, tais como a fabricação, o processamento, o armazenamento, o estoque, a distribuição e a comercialização. Em todas as etapas, atores sociais estão interagindo e moldando os rumos dos processos. Os atores mais diretamente ligados ao processo de produção são basicamente fornecedores, produtores e trabalhadores; mas há também os atores ligados de maneira mais indireta como governos, agentes financeiros, intermediadores, concorrentes e consumidores.

Dois fatores intervenientes devem ser rigorosamente considerados na reflexão sobre cadeias produtivas, o primeiro são os ‘sistemas de suporte’, tais como o sistema bancário e financeiro, as leis, a regulação, a fiscalização, e os sistemas de coordenação entre capital/trabalho e capital/governo (ambiente econômico). O segundo são as relações internacionais de complementariedade e interdependência comercial – importação e exportação. No caso brasileiro, se verifica uma crescente dependência de importação de insumos produtivos, especialmente na cadeia produtiva agrícola (FIESP, 2013).

Em outros casos internacionais, há a dependência de insumos produtivos energéticos e metálicos, como é o caso dos EUA, da China e de alguns países Europeus, muito embora esta dinâmica de dependência energética tenda a mudar nos próximos anos com o desenvolvimento de biocombustíveis e de novas tecnologias. Conquanto as cadeias produtivas no Brasil sejam em maioria dominadas por grandes empresas ou indústrias oligopolicamente organizadas, estas operam de forma interdependente com uma série de negócios de pequeno e médio porte. Neste complexo interativo entre grandes e pequenas/médias empresas é possível identificar fragilidades ligadas ao trabalho precário, ao autotrabalho, ao trabalho não-declarado e às relações de poder desiguais tanto entre capital/trabalho, como entre grandes e pequenas/médias indústrias (cadeias de subcontratação) e entre produtores e consumidores. As capacidades de coordenação entre os atores envolvidos são um ponto nodal ou estratégico no combate das fragilidades sistêmicas das cadeias produtivas e também na definição de novos rumos, ou seja, do aperfeiçoamento da política industrial e das relações de trabalho envolvidas.

As cadeias produtivas ligadas à indústria de transformação ou de agregação de valor vêm sofrendo constante contração desde 1990 no Brasil, um processo de desindustrialização.O principal argumento relativo à causa de tal fenômeno é o do alto custo sistêmico da produção industrial, o chamado “Custo Brasil”. Especialistas no assunto proclamam a urgente necessidade de reindustrialização para que o País possa retomar a rota do crescimento e do desenvolvimento. A indústria de transformação brasileira representou apenas 13,3% do PIB em 2012 (FIESP, 2013).
As organizações patronais enfatizam o custo do trabalho e dos impostos, além da infraestrutura relacionada ao “Custo Brasil” como fatores da perda de competitividade brasileira. As pressões para flexibilizar as relações de trabalho diminuindo direitos são manifestadas com frequência do lado do capital.

O Brasil não deve diminuir direitos, mas precisa aumentar a produtividade do trabalho; para trabalhar o impasse é necessária uma força de trabalho mais qualificada. Qualificar é um tipo de investimento de duas vias, de um lado, só o trabalhador que se sente mais estável no emprego terá ímpeto ou estímulo suficiente para se qualificar melhor, de outro lado, há que se desenvolver uma consciência para o longo prazo, que inclua a qualificação profissional como elemento central, e também como estratégia na construção de um sistema socioeconômico saudável.

O componente trabalho tem sido considerado de maneira obtusa nas definições de “cadeias produtivas”, que em geral são demasiado economicistas, pouco enfatizando o componente sociológico da produção. Uma definição economicista de cadeias produtivas subtrai o papel do trabalho e das relações sociais intrincadas no processo. As cadeias produtivas são um espaço analítico privilegiado para observar as configurações capital/trabalho presentes nessas composições setoriais de produção. As cadeias produtivas são, em essência, encadeamentos de interdependência e reprodução social.

Há nessas cadeias relações (incluído aqui relações de trabalho) de interesses complexas que precisam ser identificadas e estudadas em ordem de melhor compreender como esses encadeamentos setoriais de reprodução socioeconômica afetam ou são afetadas pelas relações sociais inerentes ao processo produtivo. Tais relações tem a capacidade de afetar grandes segmentos da sociedade, tanto por produzir “contratos sociais” mais justos, como por reproduzir relações verticalizadas de produção e consumo, nacional e internacionalmente.

 

Lorena Ferraz C. Gonçalves – Socióloga, mestre em Ciências Sociais (UnB).