O populismo ressurge no mundo inteiro, enquanto o progresso técnico vai ameaçando a sociedade pelo desemprego contumaz e pelos mecanismos de controle social que tornam o cidadão e o eleitor submetidos a instrumentos altamente sofisticados, com algoritmos construídos a partir de diversas informações colhidas nas redes sociais, nos hábitos de consumo e na manifestação de opiniões, da cultura em geral à política.

Isso está presente em países hegemônicos, como os Estados Unidos, bem como nos países emergentes como a China, onde o governo instala um Citizen Score, uma espécie de pontuação que é consignada a cada habitante, com óbvias inclinações de uso político das informações e buscando o mais amplo controle social. Afinal, a sociedade é um sistema altamente complexo. Os chineses, bem como os demais adeptos ao crescente controle das massas pelas tecnologias sofisticadas, avaliam que a clássica “participação democrática”, por meio de consultas regulares em eleições já não seja mais suficiente para analisar preferências das populações, nem os resultados de políticas públicas.

Desde o início do século 21, tem sido intensa a ressurreição do fenômeno populista em várias partes do mundo. Partidos populistas, candidatos independentes, movimentos e organizações (de esquerda, centro, ou de direita), têm se apresentado nas disputas eleitorais com discursos que, como veremos adiante, caracteriza aquilo que os estudiosos chamam de lógica populista, ou linguagem populista.

A expressão disso está em toda parte. Nos Estados Unidos, desde o Tea Party (fração saída do Partido Republicano), passando pelo modo e o discurso de Bernie Sanders e do Movimento Occupy Wall Street.  Na Europa o fenômeno se espalha: França com o Partido Frente Nacional (Le Pen); na Dinamarca, com o Partido do Povo, na Áustria, com o Partido da Liberdade; na Suíça com o Partido do Povo; na Holanda com o Partido da Liberdade; na Inglaterra com o partido que influenciou a decisão eleitoral do Brexit, (UKIP) o Partido de Independência do Reino Unido, eurocético e direitista e bastante jovem, tendo sido criado em 1993; na Itália o partido liderado pelo comediante Beppe Grillo, Movimento Cinco Estrelas; na Espanha o esquerdista Podemos, fundado em 2014; na Grécia o Partido Syriza, para citar os mais destacados. Na América Latina, a prática populista sempre esteve latente na esfera política, mas o ressurgimento do populismo é marcado pela vitória eleitoral de Hugo Chávez, na Venezuela, em 1998; por Néstor Kirchner com o peronismo argentino; por Luiz Inácio Lula da Silva, no Brasil; por Evo Morales, na Bolívia; por José Mujica, no Uruguai, para citar as lideranças mais expressivas.

Não é fácil compreender o tema do populismo. Vale dizer que, o tipo de populismo de que estamos falando, e que, na sua origem, se apresenta de forma expressiva na história dos EUA e que foi transplantado para a Europa e América Latina a partir dos anos 1930, não pode ser definido como de esquerda, direita ou centro. O populismo não é uma ideologia, mas um modo de fazer política. No Brasil, até agora, o conceito de populismo nos remetia a nossas experiências políticas (Vargas 1930-45 e 1951-54), Adhemar de Barros (1947/1951 e 1963/1966), Jânio Quadros e sua renúncia à presidência em 1961, João Goulart e o golpe de 1964 com sua destituição.

A expressão populismo é originária dos Estados Unidos (populism), quando em maio de 1891, membros da Kansas Farmers Alliance (Aliança dos Fazendeiros do Kansas), voltam de uma convenção nacional, em Cincinatti, reivindicando melhores condições de financiamento bancário para a agricultura, num momento de crise gerada por uma seca na região. Os fazendeiros se uniram à organização Knights Labor, a primeira organização de trabalhadores (blue collars)  dos EUA, criada em 1869, para formar o Populist Party, que durante alguns anos desafiou a força dos Republicanos e Democratas.

Eles alegavam representar o povo contra o poder do dinheiro; dicotomia entre povo (pobres) e ricos (elites) que é central para a existência do populismo. Nada a ver com socialismo. Busca-se a reforma do capitalismo, não sua extinção, baseada na vaga definição de povo e dispensando a intermediação de organizações representativas de diferentes interesses no âmbito do sistema político formal.

Nos EUA, em 1892, o Partido do Povo (People Party), se consolidou e indicou James K. Weaver, como candidato à Presidência da República dos EUA. Na convenção do partido, o líder populista Ignatius Donnely lançou um manifesto chamado de “A Segunda Declaração da Independência”. Perderam as eleições e a força organizatória frente aos partidos, desde então dominantes no cenário norte-americano (Republicanos e Democratas). Passaram o legado para a América Latina, desde então: o povo contra as elites e lutas baseadas na existência de um forte líder carismático, que sempre utiliza meios de sedução quase mágica para angariar forças e deprimir as demais organizações sociais e políticas.

A eleição de Donald Trump é uma expressão do redivivo populismo histórico dos Estados Unidos, agora baseado em campanhas com alta tecnologia e buscando o apoio de massas desorganizadas e não perfilados aos ditames dos dirigentes partidários. Os conflitos de Trump com seus próprios partidários republicanos é a ilustração disso, nesse momento; além das diárias demissões que seus companheiros republicanos pedem. O mandatário norte-americano invoca seus poderes de grande empresário conectado aos interesses dos crescentemente submetidos à crise econômica (desemprego, falta de cobertura social, precarização pelo avanço tecnológico), reforçado por uma postura protecionista, para reinventar o país.

Enfim, de modo geral, o espontaneismo populista, de “tentar seguir a opinião do povo” é positivo frente ao elitismo das oligarquias desconectadas das demandas populares; porém isso é insuficiente para determinar o papel e os objetivos diante da possibilidade de poder. O processo de articulação populista é mais completo e inclui muitas dimensões no diálogo entre o projeto e a dinâmica real. Isso não tem semelhanças com a estratégia e a ideologia “comunista”, do socialismo realmente existente, determinista e global, uma vez que a estratégia populista funciona como um guia de alcance médio envolvendo a implantação de valores democráticos e igualitários.

Essa pode ser a linha de corte para distinguir distintos tipos de populismos, visando a construção de uma comunidade política livre e igual. A questão crucial é se um movimento popular é reacionário ou progressista, autoritário ou democrático e democratizador, opressivo ou emancipador, e assim por diante. No caso latino-americano, especialmente, o populismo sempre está ligado a um fenômeno intermediário, entre a sociedade tradicional e a moderna: sua existência e força dependem da identificação das massas com uma liderança carismática, o Grande Líder, sem o qual não haverá salvação. As ilustrações são tão evidentes que não necessitam ser repetidas!

O Brasil de Temer reinstala um Populismo Reacionário no Brasil quando, mesmo sem passar pelas instâncias intermediárias do sistema político, decreta e determina mudanças de tributos, desonerações e outros privilégios de corporações dentro do Estado, em troca de suporte para seu frágil mandato.

O que é comum a todas as expressões do populismo, como fenômeno político resistente a um real processo de democratização.

Benício Schmidt – Colaborador do IAE/UGT